Força da Justiça

Força da Justiça

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

À sombra de uma mangueira *orgânica*

Minha filha estuda em uma escola de educação *alternativa*. Mundo louco este porque quando digo *alternativa* nada mais é do que garantir à criança se apropriar do seu corpo, emergir sua criatividade, apostar na saúde com uma alimentação saudável, cantar, contar e se encantar com *estórias*, músicas. Pois é. Alternativa contra um mundo, e aí a maioria das escolas, em que a criança, desde cedinho, é obrigada a cumprimentar os outros, a ir para o colo de quem a quer, de pintar desenhos já traçados por outros, de engolir as deliciosas envenenadas recheadas e o choro também.

Só que já sabia que a alternativa a este mundo ainda é possível a poucos ou por desconhecimento ou por descrença ou por condições sócioeconômicas, raciais ou falta de atrevimento ou ou ou. O fato é que o mamão antes plantado na casa de minha avó *também lembro dos caquis... jacas...* hoje não é apenas um mamão, é mamão orgânico e não é pra qualquer um. O sonho de se aprender e ensinar na sombra de uma mangueira - salve amado Paulo Freire -  segue, embora tenha se tornado um sonho orgànico, mas tem que pagar e pagar mais, tem que procurar para quem sabe achar, tem que se atrever a negociar quando não se pode custer, entrar e ousar permancer.

Mas, como toda mãe que ama, meu desafio é pagar os preços da vida na aposta de que minha filha possa ser feliz.

Por vezes fico ranzinza, mas depois volto a acreditar que há chance para esse mundo até porque recebo olhares lindos, significativos, significantes de um par de jabuticabas orgânicas lindas demais.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Mulheres e a luta por Justiça: Violência obstétrica

Mulheres e a luta por Justiça: Violência obstétrica

Violência obstétrica


Eu vi uma mulher preparando outra pessoa... o tempo parou pra eu olhar para aquela barriga... a vida é amiga da arte... É a arte que o Sol me ensinou...
...
E a coisa mais certas de todas as coisas não vale um caminho sob o Sol...


Na rotina das quintas-feiras e sextas dos últimos dois meses atravesso a cidade para chegar ao extremo leste, divisa com Guarulhos, para fazer formação com dois grupos de mulheres, de idades variadas, experiências que ora se aproximam ora mostram a riqueza da diversidade.
 
Um trabalho como este não tem como ser apresentado a não ser com o encontro de duas palavras> força e beleza, encanto-me ao ver nelas nossa face de mulher.
 
O último encontro me tocou profundamente e particularmente, a tal ponto que hoje estou aqui a escrever, depois de um longo tempo. Perdoem-me, mas a vida me chamou por outros caminhos e ficou difícil manter essa prosa com a frequência que gostaria... e essa mesma dona vida me deu mais experiências para compartilhar em textos por aqui.
 
Entro em sala com a parceira de trabalho e olho para aquelas mulheres. Respiro fundo e lá vamos nós falar sobre gestaçao, puerpério, aproveitando o gancho do ECA *Estatuto da Criança e do Adolescente* que reconheceu o período pós-parto como fase de especial importância para a mulher e para a criança, embora tenha por objetivo minorar ou evitar as consequências do puerpério. Cá entre nós, importantíssimo esse reconhecimento do ECA, mas puerpério tem que ser vivido com apoio verdadeiro e ciente do que está sendo construído nessa fase que é ao mesmo tempo de renascimento da mulher que cuida do recém-nascido, relação de profunda mudança para ela e para a criança que, por sua vez, deixa um corpo que não é seu, mas que precisa de um tempo para entender o que aconteceu e, mesmo ao perceber gradativamente, dá sinais sobre a vida da mãe, sinais do que está bem, do que não está, formando por vezes uma relação de espelho. Então fica quase que desnecessário dizer que esta mulher precisa estar amparada, acarinhada, segura para cuidar da criança e captar estes sinais, mas não é o que ocorre.
 
Joana, durante nosso encontro, afirmou que a sensação que teve após a filha nascer foi a de  não querer vê-la, pois ficou durante horas imobilizada, seu parto foi um pesadelo e ela se sentiu torturada.
 
Caielli recebeu ocitocina sintética para acelerar o parto, sentia dores horrendas, sozinha, não permitiram que outra pessoa a acompanhasse, a não ser o pai da criança, mas ele estava em outro Estado. A equipe médica conclui que ela deve ser submetida à cesárea porque o trabalho de parto estava lento, aplicaram-lhe anestesia que não surte efeito, dizem que não podem aplicar outra, pois o bebê entraria em risco de morte. Dizem que os dois podem morrer se o parto não fosse feito naquele momento. Ela pede que façam a cirurgia e que salvem sua filha, sente cada corte e costura e a avisam que deve orar, pois não dariam 24 horas de vida para a recém-nascida que hoje tem quase dois anos. O sentimento de desespero, solidão e angústia a acompanham até hoje.
 
Flor não conseguia falar, chorava de soluçar.
 
E os relatos de trauma, dor se seguiram. O que deveria ser um momento de celebrar a vida, tornou-se para essas mulheres tortura e elas são as únicas.  Segundo a OMS, Organização Mundial de Saúde, 1 em cada 4 mulheres foi violentada durante o trabalho de parto, o que se chama de violência obstétrica. Número que pode ser bem mais elevado, uma vez que a informação sobre o que é violência obstétrica não é ainda divulgada o suficiente para que as mulheres percebam se foram vítimas ou não, acreditando muitas vezes que foram submetidas a tratamentos necessários. São vários os exemplos do que configura o tratamento desumano à gestante como o  excessivo número de exame de toques, sem a apresentação dos profissionais e explicação sobre o procedimento e o objetivo, frases depreciativas como *na hora de fazer não gritou*, *tá gritando, mas aposto que no ano que vem estará aqui de novo*, impedimento de acompanhante por escolha da parturiente, impedimento da mãe ficar com a criança logo após o nascimento e dar de mamar, aplicação de ocitocina sintética para acelerar o parto, obrigar a parturiente a ficar em determinada posição, realizar episiotomia *corte entre o ânus e a vagina* sem consentimento e sem necessidade, empurrar a barriga da gestante para que o bebê nasça e assim vai.
 
É importante denunciar para evitar a continuidade dessa tragédia que afeta mulheres, ou seja, é violência de gênero, afeta crianças, afeta a vida. Denunciar à Secretaria de Mulheres através do disque 180, ao Ministério Público Federal, ao Judiciário como tentativa de obrigar que os agressores *equipe médica e hospital* indenizem as vítimas. Tanto as Defensorias Públicas como advogados podem ingressar com a ação de danos morais.
 
É importante desabafar, tirar de si a culpa do que ocorreu porque a pergunta e *se eu tivesse feito isso ou aquilo* fica martelando na cabeça de quem sofreu a violência, é importante procurar apoio. Cresce o número de estratégias para identificar, denunciar e impedir a violência obstétrica e mais... cresce o número de centros humanizados de parto e atendimento à gestante como a CASA DE PARTO ANGELA, na zona sul de São Paulo.
 
Apoie o parto humanizado. Parir com amor. Nascer com amor. Ampare uma gestação, uma gestante. Acredite no potencial da mulher em parir e conduzir a relação com a criança. Ajude para que ela tenha, sobretudo, amparo, amor e segurança. É possível.






 
 
Saiba mais sobre violência doméstica<


http://maternar.blogfolha.uol.com.br/2014/03/12/mulheres-denunciam-violencia-obstetrica-saiba-se-voce-foi-vitima/

http://www.partodoprincipio.com.br/#!faq-violncia-obsttrica/c22qe

Sobre a CASA DE PARTO ANGELA<

http://www.casaangela.org.br/

RECOMENDADO

FILME O RENASCIMENTO DO PARTO

sexta-feira, 20 de março de 2015

O que você vê e sente?


Tenho percebido o quanto a invisibilidade, ou de forma mais direta: a ignorância, em relação aos tipos de violência persiste. 
Então proponho o exercício de pensarmos em exemplos de violência desde as simbólicas (aquelas que quase ninguém pode testemunhar porque não a percebe, mas que ferem imensamente e, em alguns casos, matam) às reais (escancaradamente vistas, mas que podem ser banalizadas). Comecemos pela violência psicológica, poderemos tratar da violência fìsica e sexual nos próximos textos. Depois (ou agora mesmo) também podemos trocar figurinha sobre exemplos de tratamentos respeitosos às pessoas para os tornar visíveis igualmente, o que acham?

VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA

(Lei Maria da Penha: a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação.) Aqui coloco outro parênteses, entendo a violência contra a mulher como gênero, da qual decorrem a violência contra a criança menina, contra a adulta e a idosa.

Exemplos:

Negar-se a explicar os motivos de um "não" para uma criança e no lugar disso mandá-la calar a boca, ameaçá-la e dizer "criança não tem querer",

Usar palavrões para fazer calar alguém, ainda mais quando este alguém é uma criança,

Não permitir que alguém dance, alegando que é coisa demoníaca. 

Criar, chamar, enfim, ridicularizar as pessoas com adjetivos pejorativos, como macaco, em função de raça,idade, orientação sexual, religião, deficiência física, gênero.... Exemplos mais práticos: macaco, referir-se a alguém como aquela neguinha ou aquele neguinho, chamar alguém de velho, imprestável, viadinho, , macumbeira, aleijado, defender o estupro "curativo" contra lésbicas. Falar de assuntos inapropriados diante de uma criança, considerando-a burra (ah, ela não entende mesmo!) ou surda (ah, ela não está nem ouvindo!), usar o termo "isso é coisa de mulherzinha".

Ameaçar uma criança de bater nela, se contar a alguém algo...

Permitir tratamento discriminatório entre meninas e meninas. Exemplos: meninas não podem jogar bola, brincar de carrinho, soltar pipa, meninos não podem chorar, brincar de casinha, usar rosa, ajudar nas tarefas domésticas.

Racismo Institucional. Exemplos: na biblioteca de uma escola não haver (ou haver pouco em relação ao todo) livros protagonizados por personagens negros ou negras, indígenas; ter representada na decoração só crianças de determinado grupo ou de forma melhor destacada que as demais, não implementação da lei 11.639 que tornou obrigatório o ensino de cultura e história afrobrasileira. Genocídio da juventude negra. Emissoras de tv que fomentam esteriótipos contra segmentos populacionais vulneráveis no sentido político, o programa Zorra Total é uma boa citação, uma vez que nele negros e negras são ridicularizados, bem como portadores de deficiência (não parecia ser este o caso de Janete?), mulheres... o que nos leva a citar a PIADA RACISTA.


Agora participem e dêem exemplos. Vamos falar, desabafar! Colocar a energia para girar a favor de uma transformação humana conscientizadora de nosso papel no mundo!

domingo, 21 de dezembro de 2014

Projeto nº 117/2003 sobre guarda compartilhada: VETE-O, PRESIDENTA!

Querida Presidenta reeleita Dilma,


Vete o Projeto Lei do Senado de nº 117/2003. 

Primeiramente porque ele é, no mínimo, mal redigido, para não dizer mal intencionado ao criar uma confusão entre guarda compartilhada e guarda alternada, não contemplada em nosso ordenamento. A confusão está explicitada desse sua justificativa, na qual é citado trecho do discurso de uma juíza que, inclusive, usa o termo "menor" ao invés de criança e adolescente, e que fala, dentre outros, da possibilidade de domicílio alternado. Embora o PL não tenha explicitamente mencionado domicílio alternado, indica "tempo de custódia fixa dos filhos deva ser dividido de forma equilibrada" de convívio entre os filhos e "cidade base de moradia", ou seja, se não declarou explicitamente, faz de maneira implícita, o que induz a erros de interpretação, algo grave.

Ora, Presidenta, na guarda compartilhada o que mais está em jogo não é o tempo dividido de forma igualitária ou equilibrada e nem fixação de cidade base de moradia, pois a criança ficará com uma das partes, morará com ela e terá, queira ou não, mais tempo com esta. O cerne da guarda compartilha é o ideal no qual mãe e pai possam refletir conjuntamente sobre decisões a serem tomadas para o melhor interesse do filho e, assim, terem todos qualidade crescente na relação. A preocupação por "custódia física" e cidade domicílio são discussões típicas do regime de guarda alternada. Ademais, o termo custódia física parece ter semelhança com a doutrina da situação irregular,  na qual o termo menor, significativo da coisificação de crianças e adolescentes, fez, infelizmente sentido com a prática de outrora, algo que a Constituição Federal de 1988, Convenção dos Direitos da Criança, o Estatuto da Criança e do Adolescente romperam radicalmente. 

Compartilhar, ao contrário da justificativa cheia de contradições do Projeto Lei, possui sim a condição anterior da vontade dirigida a amar e pensar o destino de um filho. A lei não tem o poder de alterar a ausência de vontade e forçar essa condição fere frontalmente o dever de proteção a crianças e adolescentes. O Projeto Lei tem sim evidente o intuito de coisificar a estas, tornando-as objetos de experiência na qual juízes agora teriam que aplicar a guarda compartilhada ao perceberem que pai e mãe possuiriam, em tese, a condição de a exercer. Ou seja, em nome de obrigar a Magistratura- é o que pretende equivocadamente o Projeto -  a ter outro entendimento do que seria "sempre que for possível", como determinou a lei da guarda compartilhada que modificou o Código Civil, aliada ao bom senso da vontade mínima do pai e da mãe, criou-se praticamente um automaticismo no qual pouco importará a saúde emocional da relação entre pai e mãe e destes com os filhos, o que importará mesmo é criar a ilusão de que a obrigatoriedade do cumprimento de uma super decisão judicial funcionou ao obrigar os envolvidos a pensarem e refletirem a respeito dos filhos É mesma ilusão de legislar para tornar o amor obrigatório.

O Projeto Lei é tão confuso que, em sua justicativa, afirma haver perda de tempo do Congresso Nacional ter aprovado a Lei da Guarda Compartilhada, se o  número das sentenças a esse respeito não foi significativo, e que esta situação poderia beneficiar pessoas de má fé. Houve perda de tempo, então, quando a lei que definiu a alienação parental foi aprovada e sancionada? 

Sim, é um projeto de lei com cara de "bom senso", afinal seria o melhor para a criança ter pai e mãe decidindo juntos questões cotidianas e importantes, só que os "mas".

Para se compartilhar a guarda de alguém, ainda mais de uma criança, há, como é preciso repetir,  critérios anteriores: amor verdadeiro, vontade, empenho, reflexão, responsabilidade. Não é isso que vemos, infelizmente, na maioria dos pais. Vejo-os desfrutando de todo privilégio que o machismo produz e não há lei que mude esse mentalidade. Trabalhei, como coordenadora do Projeto Defendendo o direito à Convivência Familiar da Defensoria Pública de São Paulo em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República em 2009, por alguns homens, pais-educadores, ou seja, pais de verdade, que sofreram com o "revés do machismo" por não serem ouvidos pelo Poder Judiciário, uma vez que "homens" devem apenas prover, leia-se pensão alimentícia, e não educar, papel da mulher, mãe. Homens que eram vistos como quem tem algum interesse obscuro na disputa da guarda de uma criança ou o que o valha (reinserção familiar na questão de acolhimento institucional), mas não tenho receio de dizer, são minoria. O que vi e vejo é uma fila imensa de mulheres mães em Fóruns querendo saber do processo de reconhecimento de paternidade, de pensão alimentícia e ouço também homens se eximirem do papel de cuidadores porque a "ex-mulher" não deixa, chego a sentir vontade de chorar, poupem-me, parece que até a luta na justiça para defender o direito dos filhos tem mais a cara de uma mulher do que a de homem.

Então pergunto: dentro desse quadro machista, explorador, como tornar obrigatório amar verdadeiramente uma criança, colocando-se a si mesmo em segundo plano?

Não tenho dúvida de que o Projeto Lei foi pensado também com base na situação desses pais de verdade, uma vez que diz que o não incremento da guarda compartilhada beneficia pessoas de má fé. Sendo a maioria esmagadora de guardiãs formada por mulheres, só posso vir a crer que o autor do Projeto falou sobre pais em situação judicial injusta, mas para isso há a lei que versa sobre a alienação parental, como já mencionado, e a necessidade que beneficiaria a todas e todos de humanizar o Poder Judiciário.

A legislação atual já dá diretrizes coerentes, no qual o que se deve atender é o que melhor se demonstrar para a criança.

A Constituição Federal de 1988 afirma que é dever de todos proteger a criança de toda forma de negligência, opressão e etc (artigo 227), ou seja, cabe nos casos que chegam ao Judiciário, haver estudo sério por profissionais competentes para que a verdadeira proteção seja concedida.

A Convenção Internacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, cujo patamar está abaixo da Constituição Federal e acima de todas as demais leis, determina, em seu artigo 3, que:

1. Todas as ações relativas às crianças, levadas a efeito por instituições públicas ou privadas de bem estar social, tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, devem considerar, primordialmente, o interesse maior da criança.

Essa é e deve ser a maior premissa. Tornar a guarda compartilhada obrigatória (sim, porque não ouvir os pais a respeito e deixar de a aplicar só se uma das partes se opuser é criar o automaticismo e retomar a coisificação de crianças) viola, ao meu ver, a Convenção porque rompe com a ideia maior de estudar com atenção e seriedade, em cada caso concreto, o que é melhor para Caio, Laura, Juliana, Caíque, cada criança com seus anseios, desejos... Obrigatoriedade gera automaticidade, o que nada tem a ver com a beleza e complexidade humanas.

O Código Civil, que deve obedecer a Constituição Federal e a Convenção dos Direitos da Criança, seguiu a trilha e não determina a obrigatoriedade nem da guarda unilateral e nem da compartilhada. Afirma acertadamente que esta deve ser incentivada. Repito: incentivada.

E o Estatuto da Criança e do Adolescente deveria ter seus princípios seguidos, que são baseados na Constituição Federal e na Convenção dos Direitos da Criança, em todos os casos em que houvesse interesse de criança na discussão. É uma lei que muito nos ensina sobre ouvir, respeitar, sentir @ outr@.

Repito, sem medo de errar, o tal projeto confunde guarda compartilhada com guarda alternada, sequer existente no Direito Brasileiro, no qual a criança mora alternadamente na casa dos pais, o que prova que deputados e senadores precisam estudar mais.

Caso esse projeto não seja vetado, penso que o Brasil dá força ao machismo mais uma vez e retoma o Código de Menores. Assim todo argumento de uma mulher sobre a impossibilidade de compartilhar a guarda de sua criança com o pai desta vai ser entendido como mágoa, retaliação, uso de criança como objeto de vingança... Em uma rede de discussão ouvi, inclusive, poucas mulheres argumentando serem a favor do projeto para acabar com anos de injustiça a pais verdadeiros. Como demonstrei só um pouquinho, essa injustiça não advém da lei e sim do olhar viciado da prática, viciado não à toa, mas que indica também a necessidade de mudança no trato com em geral com as pessoas que se vêem diante do Judiciário para resolver alguma questão. Mesmo olhar que, aliás, impõe, na prática, que pais arquem com 30% do seu salário para pensão alimentícia (porcentagem inexistente na lei de alimentos) e que mães assim arquem com praticamente toda sua remuneração. Importante também lembrar que não temos controle externo da magistratura;

Caso o projeto lei seja aprovado, talvez casos sombrios, horrorosos, tornem-se emblemáticos e apontem na pele de crianças esse erro infeliz e irresponsável.

Por essas razões me junto a outro número infinito de mães que pedem o mesmo: vete esse Projeto Lei. Temos muita luta diária neste país que, embora os avanços, ainda pouco assegura direitos à infância e adolescência, violenta mulheres, precisa discutir os ensinamentos de Laura Gutman sobre maternidade. Seria honroso respeitar o tempo de amar nossas crianças e bem cuidar delas e pouparmos de conduzir uma batalha no STF sobre controle de constitucionalidade, convencionalidade, se acaso este projeto tornar-se lei.


#vetadilma!#

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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Guarda compartilhada

O Senado aprovou, por unanimidade, o Projeto Lei nº 117/2013 de autoria da Câmara dos Deputados, que obriga que a guarda de crianças e adolescentes seja compartilhada, ou seja, direitos e deveres iguais para pais e mães. Recebi uma postagem do Senador Suplicy com uma foto na qual @s Senadores comemoravam o resultado. Confesso ser fã do Senador Suplicy, mas pensei "até tu, Brutus"...

Espero ansiosamente, sinceramente, escancaradamente o veto da Presidenta Dilma por várias razões, explicarei algumas.

Primeiramente é um projeto de lei com cara de "bom senso", afinal seria o melhor para a criança ter pai e mãe decidindo juntos questões cotidianas e importantes e blablablá. Só que tem o "mas".

Para se compartilhar a guarda de alguém, ainda mais de uma criança, há critérios anteriores: amor verdadeiro, vontade, empenho, reflexão, responsabilidade. Não é isso que vejo, infelizmente, na maioria dos pais. Vejo-os desfrutando de todo privilégio que o machismo produz e não há lei que mude esse mentalidade. Trabalhei por alguns homens, pais-educadores, ou seja, pais de verdade, que sofreram com o "revés do machismo" por não serem ouvidos pelo Poder Judiciário, uma vez que "homens" devem apenas prover, leia-se pensão alimentícia, e não educar, papel da mulher, mãe. Homens que eram vistos como quem tem algum interesse obscuro na disputa da guarda de uma criança ou o que o valha (reinserção familiar na questão de acolhimento institucional), mas não tenho receio de dizer, são minoria. O que vi e vejo é uma fila imensa de mulheres mães em Fóruns querendo saber do processo de reconhecimento de paternidade, de pensão alimentícia e ouço também homens se eximirem do papel de cuidadores porque a "ex-mulher" não deixa, chego a sentir vontade de chorar, poupem-me, parece que até a luta na justiça para defender o direito dos filhos tem mais a cara de uma mulher do que a de homem.

Então pergunto: dentro desse quadro machista, explorador, como tornar obrigatório amar verdadeiramente uma criança, colocando-se a si mesmo em segundo plano?

A legislação atual já dá diretrizes coerentes, no qual o que se deve atender é o que melhor se demonstrar para a criança.

A Constituição Federal de 1988 afirma que é dever de todos proteger a criança de toda forma de negligência, opressão e etc (artigo 227), ou seja, cabe nos casos que chegam ao Judiciário, haver estudo sério por profissionais competentes para que a verdadeira proteção seja concedida.

A Convenção Internacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, cujo patamar está abaixo da Constituição Federal e acima de todas as demais leis, determina, em seu artigo 3, que:

1. Todas as ações relativas às crianças, levadas a efeito por instituições públicas ou privadas de bem estar social, tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, devem considerar, primordialmente, o interesse maior da criança.

Essa é e deve ser a maior premissa. Tornar a guarda compartilhada obrigatória viola, ao meu ver, a Convenção porque rompe com a ideia maior de estudar com atenção e seriedade, em cada caso concreto, o que é melhor para Caio, Laura, Juliana, Caíque, cada criança com seus anseios, desejos... Obrigatoriedade gera automaticidade, o que nada tem a ver com a beleza e complexidade humanas.

O Código Civil, que deve obedecer a Constituição Federal e a Convenção dos Direitos da Criança, seguiu a trilha e não determina a obrigatoriedade nem da guarda unilateral e nem da compartilhada. Afirma acertadamente que esta deve ser incentivada. Repito: incentivada.

E o Estatuto da Criança e do Adolescente deveria ter seus princípios seguidos, que são baseados na Constituição Federal e na Convenção dos Direitos da Criança, em todos os casos em que houvesse interesse de criança na discussão. É uma lei que muito nos ensina sobre ouvir, respeitar, sentir @ outr@.

Ainda, o tal projeto confunde guarda compartilhada, na qual a criança tem um domicilio fixo, com guarda alternada, sequer existente no Direito Brasileiro, no qual a criança mora alternadamente na casa dos pais, o que prova que deputados e senadores precisam estudar mais.

Caso esse projeto não seja vetado, penso que o Brasil dá força ao machismo mais uma vez. Assim todo argumento de uma mulher sobre a impossibilidade de compartilhar a guarda de sua criança com o pai desta vai ser entendido como mágoa, retaliação, uso de criança como objeto de vingança... situações que já discutimos por aqui. Em uma rede de discussão ouvi, inclusive, poucas mulheres argumentando serem a favor do projeto para acabar com anos de injustiça a pais verdadeiros. Como demonstrei só um pouquinho, essa injustiça não advém da lei e sim do olhar viciado da prática, viciado não à toa, mas que indica também a necessidade de mudança no trato com em geral com as pessoas que se vêem diante do Judiciário para resolver alguma questão. Mesmo olhar que, aliás, impõe, na prática, que pais arquem com 30% do seu salário para pensão alimentícia (porcentagem inexistente na lei de alimentos) e que mães assim arquem com praticamente toda sua remuneração.

Caso o projeto lei seja aprovado, talvez casos sombrios, horrorosos, tornem-se emblemáticos e apontem na pele de crianças esse erro infeliz e irresponsável.

#vetadilma!#

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domingo, 19 de outubro de 2014

Espelho

Enfrentar inúmeros tipos de preconceito e discriminação é enlouquecedor ou quase. 

Pensei no que escrever, pois quero este espaço vivo a ponto de me aproximar de outras mulheres guerreiras que precisam de ajudam. Então, vou botar neste "papel" o que vier.

Quando uma amiga, uma conhecida ou até mesmo desconhecida desabafar com você alguma violência vivida, um "amor" que fragiliza ou qualquer outra situação difícil para ela, ouça, sobretudo empreste seus ouvidos. Se não souber o que falar, reconheça. Acredite, confessar isso te dará a permissão de pensar melhor e, em consequência, dizer algo que possa ser de fato acolhedor. Coisas como "mas você o ama", "homem é assim mesmo", "se dê o valor", "seja superior", "o mundo é assim, fazer o quê?" são enfraquecedoras em boa parte das vezes.

Ouça as histórias como se fosse o espelho falando contigo. Você pode pensar agora: "que horror, eu nunca fui ofendida por um homem!" Pode até ser (será mesmo? há ofensas silenciosas), mas dificilmente alguém nessa vida não enfrentou a experiência de se sentir maltratada por uma pessoa e não saber o que fazer e mais: sentir "afeto" por ela. Colocar-se no lugar (espelho) não significa naturalizar a violência. Infelizmente é comum, mas ser normal é outra coisa totalmente diferente. 

Colocar-se no lugar de outra pessoa, buscando referência de situações semelhantes vividas é, para mim, reconhecer sentimentos, perceber-se igual, enquanto ser humano, e o passo seguinte é identificar que o mesmo sentimento como raiva, por exemplo, pode desencadear reações diferentes, conforme cada pessoa e aí está o direito à diferença, amigo do direito à igualdade, caminham juntos. Há quem sinta raiva e grite, há quem engula, há quem só vai sentir a raiva bem depois do que aconteceu, há quem adoeça...

Com a experiência do espelho, os "conselhos" podem se transformar, já não é mais o "se eu fosse você, procuraria uma advogada" (esse "se eu fosse você" dá a impressão de superioridade, ainda que não seja a ideia) e pode vir como uma pergunta: "e se você procurasse uma advogada?". Veja só que legal, aparece uma pergunta que quer ouvir uma resposta, pois em um diálogo é assim que funcionam as coisas, todas as pessoas envolvidas nele tem experiências , ideias para compartilhar. Melhor ainda quando a pergunta envolve o 'nós': " e se nós procurássemos uma advogada?". 

Esse exemplo vale para outras situações. Ouvir, por-se no lugar, compreender o sentimento, abrir mão de receitas, pensar junto.

Apoio, presença. 

Uma mais uma é sempre mais que duas (peguei emprestado de Beto Guedes e adaptei para nós).

Asè